Já faz algum tempo que minha vida vem atravessando mudanças profundas, e eu sou do tipo que, por natureza, repudio a idéia de que as coisas mudem. Desde aquelas que alteram somente uma rotina, quanto as mudanças mais homéricas, que são aquelas que deslocam o eixo pelo qual a minha própria existência se orienta. Algumas dessas mudanças chegaram a tocar a fronteira do traumático psicológico e, de certa maneira, refletindo no meu estado físico, como se certos acontecimentos tivessem decidido atravessar a superfície tranquila dos dias para revelar camadas mais densas e desconfortáveis da realidade. Ainda assim, curiosamente, o silêncio deste blog começou um pouco antes dessas tempestades pessoais. A última publicação repousa ali, imóvel no tempo, datada de 29 de novembro de 2023, como uma pequena cápsula de memória digital esquecida em um canto da internet falando justamente sobre o meu pai. Recordo-me bem desse dia. Ele carregava uma leveza aparentemente comum, quase banal e, no entanto, estava situado a apenas vinte e quatro horas de um momento que, olhando agora em retrospecto, adquiriu um peso muito maior do que eu poderia imaginar: era a véspera do aniversário de 75 anos do meu pai, era o último aniversário que ele comemoraria.
Naquela época sua saúde já não caminhava com a mesma firmeza de antes. Havia sinais discretos, pequenos cansaços, pausas um pouco mais longas entre um gesto e outro, como se o corpo estivesse lentamente negociando com o tempo. Mesmo assim, a vida seguia com a obstinação silenciosa que caracteriza tantos pais: aquela forma quase teimosa de continuar avançando apesar das rachaduras invisíveis que começam a surgir. Até que, na noite de 26 de abril de 2024, essa obstinação finalmente encontrou seu limite. A morte chegou de maneira definitiva, como sempre chega, sem pedir licença, sem permitir ensaios ou despedidas adequadas.
A partida dele, entretanto, não foi um evento isolado na paisagem emocional da minha vida como um todo. Nos meses e anos ao redor dessa perda (No passado e no futuro deste ponto), outras pessoas, amigos e amigas da minha própria geração também começaram a desaparecer do mundo dos vivos com uma frequência que parecia estatisticamente depravada. Cada notícia de falecimento funcionava como um pequeno lembrete daquilo que normalmente preferimos ignorar, a de que o fato de que a linha que separa presença e ausência é muito mais frágil do que imaginamos quando somos jovens. E foi justamente esse acúmulo de ausências que começou a despertar em mim uma inquietação persistente, quase filosófica. Passei a refletir, com uma insistência cada vez maior, sobre algo que talvez seja a pergunta mais antiga da humanidade: "Qual é exatamente o propósito da minha vida"?Foi assim que comecei a desengavetar antigos projetos, ideias que haviam sido guardadas em algum lugar da minha mente e que, por muito tempo, permaneceram ali como objetos esquecidos dentro de um armário velho e empoeirado. No entanto, sempre que eu tentava dar forma concreta a qualquer um deles, esbarrava em um obstáculo que, com o passar dos anos, havia se tornado quase orgânico: o ambiente tóxico de trabalho na prefeitura. Desde 2021, esse ambiente vinha adquirindo características cada vez mais parasitárias, destrutiva e carniceira. Não havia férias, não havia descanso, e o telefone parecia possuir uma vocação quase insana para tocar exatamente nos momentos mais inadequados: sábados, domingos, feriados, de dia e até de noite. Em Belém, havia ainda um detalhe adicional que transformava tudo em algo quase tragicômico: sempre que chovia com aquela intensidade amazônica capaz de transformar ruas em rios improvisados, o caos profissional se multiplicava como um organismo alimentado pela própria tempestade.
A tensão foi crescendo lentamente, como uma pressão invisível acumulando-se dentro de uma caldeira. Até que, em algum ponto deste ano (2026), algo finalmente rompeu. Eu explodi, mas não de maneira dramática, mas com aquela clareza súbita que às vezes acompanha as decisões inevitáveis (Justo eu que odeio mudanças). Saí do emprego. E logo em seguida migrei para outro.
Talvez eu nunca tenha mencionado isso claramente antes aqui neste espaço virtual gamístico, mas durante boa parte da década de 2000 enfrentei uma depressão profunda. Era uma presença silenciosa e persistente, algo que drenava lentamente a vitalidade dos dias como um Dementador faminto parido dos quintos dos infernos. Para combatê-lo, desenvolvi um hábito peculiar que acabou se tornando uma espécie de terapia artesanal: comecei a manuscrever diários. Escrevia à mão, página após página, de dia e de noite, as vezes até de madrugada após acordar de um sonho ruim ou simbólico. Houve ocasiões em que a caneta parecia literalmente chorar sobre o papel, deslizando por linhas que carregavam mais peso emocional do que tinta. Meu punho, muitas vezes, chegava a travar de dor, como se o próprio corpo estivesse reagindo ao esforço de traduzir em palavras aquilo que a mente e a alma insistia em carregar com profundo pesar.Depois veio a pandemia (Sim! A cronologia esta muito "Dr. Manhattan").
Na manhã da quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026, às 09:34, entreguei oficialmente o cargo que ocupava desde fevereiro do ano 2000. Vinte e seis anos. Ao sair daquele ciclo profissional tão longo, senti algo curioso que misturava alívio e vertigem, como se eu estivesse simultaneamente abandonando um peso e entrando em um território desconhecido, não foi fácil, foi doloroso como arrancar um dente podre na boca.
Conforme fui me adaptando à nova rotina e aos novos amigos, começou a surgir dentro de mim uma vontade cada vez mais clara de dar vida a certos projetos antigos (embora não todos) e também a algumas ideias novas. Desta vez eu queria escolher com mais cuidado aquilo que merecia energia e tempo. A razão que impulsionava essa decisão era surpreendentemente simples e brutal em sua honestidade. Senti o desejo de realizar algo significativo antes que algum coveiro desconhecido jogue a última pá de terra sobre o meu silêncio cadavélico eterno.
Foi nesse contexto que decidi retomar algumas práticas fundamentais...
Manter a regularidade na escrita...
...recuperar o hábito da leitura...
...e... reorganizar muito do que estava parado.
E é aqui que entra, de maneira aparentemente improvável, este blog sobre games.
À primeira vista, talvez pareça estranho que uma reflexão existencial desse tipo desembarque justamente em um espaço dedicado a videogames. Mas a ideia é contextualizar tudo, pois durante muitos anos eu procurei escapismo e exercícios de foco caçando códigos de Pro Action Replay (cheat device) para alterar o funcionamento interno de um jogo, coisas que eu adoraria fazer na vida real e resgatar as pessoas que eu perdi. Fazia bastante tempo que eu não mexia com esse tipo de coisa, e como se o universo tivesse decidido contribuir com um certo senso de ironia, meu HD simplesmente morreu, levando consigo todos os projetos que estavam armazenados ali, tanto os gamísticos quanto os não gamísticos.
Diante desse pequeno desastre tecnológico, tomei uma decisão que, em retrospecto, pareceu quase libertadora: "Recomeçar do zero". Para isso, escolhi revisitar um velho conhecido: Sonic the Hedgehog 1, do Master System. De qualquer forma, pretendo iniciar toda a documentação do absoluto zero e publicar aqui cada progresso conforme forem surgindo.
Quanto ao canal do YouTube, bem... ele está morto e enterrado. Não sinto mais vontade alguma de investir energia nele. Porém, a vida tem o hábito curioso de surpreender nossas certezas mais sólidas, portanto não descarto completamente a possibilidade de, algum dia, trazê-lo de volta. Se isso acontecer, naturalmente avisarei por aqui.
E para encerrar, talvez seja aqui que eu deva confessar aquilo que, enquanto meu pai estava aqui, parecia tão óbvio que poucas vezes senti necessidade de transformar em palavras: eu o amei nas pequenas coisas, na sua voz atravessando a casa, nas mãos ocupadas com seus afazeres, na Bíblia aberta sobre a mesa, nas histórias que talvez eu não tenha escutado com a atenção que hoje daria a cada sílaba. Amei-o até mesmo naquela fotografia banal que, sem saber, tornou-se uma espécie de relíquia: dois homens sorrindo para uma câmera, sem a menor suspeita de que um dia aquela imagem seria tudo o que restaria daquele instante. O tempo, ao menos para mim, não passa de um jogador trapaceiro, retirou uma peça do tabuleiro e nos obrigou a aprender uma regra que ninguém nos ensina, que é a de que certas pessoas continuam jogando depois que deixam de aparecer na tela. Meu pai foi embora em 2024, mas não desapareceu. Está nas minhas lembranças, nas coisas que faço, nas palavras que escrevo e, talvez, até nesta velha paixão por videogames que me trouxe de volta a este lugar. Por isso, Zé, onde quer que esteja o próximo estágio para onde você foi, espero que tenha encontrado uma fase tranquila. Quanto a mim, continuarei jogando. E enquanto eu continuar, uma parte de você continuará aqui.
Até lá, este blog retorna lentamente à atividade, como um velho mecanismo sendo limpo, lubrificado e colocado novamente em funcionamento depois de um longo período de silêncio.Que sua jornada seja longa e digna.
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