29 de julho de 2015

Arte inGame - Phantasy Star III e suas técnicas

Oi pessoal!

A postagem de hoje é bem simples. Vou apenas comentar um pequeno assunto que é pertinente a toda obra de arte que passe por alguma tradução: a adaptação.

É bem verdade que Phantasy Star III pode suscitar os mais diferentes tipos de postagem. Não apenas a saga que podem acompanhar do Velberan com ele, como também as postagens do Yoz aqui mesmo no Desconstrutor, no Blog de Algol, por exemplo. E isso sem contar minha saga com ele que redigi de forma narrativa encerrando com análises e resenhas de vários elementos dele quando era colunista do Gagá Games.

Planejo falar dele em outras oportunidades desconstruindo alguns de seus elementos estéticos interessantes, mas desta vez focarei somente em uma pequena adaptação feita pela Sega of America para alguns termos do jogo original japonês. São elementos "inofensivos" até, mas explicarei a razão das aspas posteriormente.






As técnicas de Phantasy Star III são divididas em quatro grupos principais. Cada um deles possui quatro habilidades diferentes que podem ter diferentes graus de força de acordo com ajustes que nós jogadores podemos fazer. Por exemplo, se preferirmos enfatizar um ataque de fogo, podemos fazê-lo diminuindo o poder de outros ataques elementais. Não há prefixos como "Gi" ou "Na" para indicar um poder maior: a técnica é mais forte ou mais fraca de acordo com os ajustes que fazemos manualmente.

Vale agora o aviso de que optei por fazer a transliteração do japonês para nosso alfabeto latino ao invés de usar os silabários e ideogramas japoneses para facilitar a leitura daqueles que não estão familiarizados com seus caracteres.

Em inglês, os nomes dos grupos são bem traduzidos. "Kougeki" virou "Melee" (algo como "ataque" em português); "Baransu" ("balance") virou "Order" (algo como "ordem"); "Kaifuku" virou "heal" (algo como "cura"); e "Jikan" virou "time" ("tempo"). Ou seja, além das técnicas de ataque e de cura que podemos entender facilmente, existem aquelas que afetam o fluxo do tempo e da ordem das coisas. O mais complicado aqui talvez seja o grupo da "ordem" que envolve conceitos do yin-yang de equilíbrio (e talvez "equilíbrio" fosse inclusive um termo melhor para descrevê-lo).

Agora as coisas começam a ficar mais interessantes. Dentro do grupo de ataque, "Foie", "Zan" e "Gurabuto"viraram "Foi", "Zan" e "Gra" respectivamente. "Gra" é basicamente uma abreviação de "gurabuto", uma técnica relacionada à gravidade. Se jogaram Phantasy Star II, sabem que "Foi" é uma técnica de fogo e "zan" de vento. Agora o caso da "Tsu" da versão americana é mais complicado já ela não é baseada em raio como a habilidade homônima no jogo que conta a história de Rolf, mas sim baseada em água. E, para complicar tudo, seu nome no original japonês é "Baata" que provavelmente conhecem em Phantasy Star Online e Phantasy Star Universe por "Barta": uma técnica baseada em gelo. Logo, a série PSO não recuperou somente os Rappies de Phantasy Star III como podem ver.


No grupo da ordem, temos quatro técnicas que já aparecem em Phantasy Star II: "Fanbi", "Forsa", "Nasak" e "Shu". Mas as aparências ficam por aí mesmo. No jogo predecessor "Fanbi" drena parte do HP dos inimigos para si próprio, "Forsa" confunde um inimigo do tipo máquina, "Nasak" é um suicídio em prol da saúde dos outros membros da equipe e Shu aumenta a defesa. Em Phantasy Star III, "Fanbi" tem o nome de "Roo" ("Law" - "lei" em português) e aumenta o poder de ataque, "Forsa" se chama "Anbaransu" ("Unbalance" - "desequilíbrio" em português) e pode matar um inimigo instantaneamente, "Nasak" tem o nome de "Baransu" ("Balance" - "equilíbrio") e se trata um suicídio em prol dos aliados e, finalmente, "Shu" se chama "Kaosu" ("Chaos" - "Caos") e aumenta a defesa. Como podem ver, os dois últimos nomes foram escolhidos sabiamente na tradução porque os efeitos são os mesmos (embora permaneça obscura a escolha por "nasak" e não "sak" simplesmente). Agora as outras duas, acredito, foram bem intencionadas na escolha, mas os tradutores erraram no nome. "Fanbi" é usada por Anna que possui uma outra técnica que aumenta o poder de ataque: "Shift" (que, inclusive, reaparece na série Online como "Shifta"). Já "Forsa" é uma técnica usada por Kain que possui uma outra que mata um inimigo (mecânico) instantaneamente: "Brose".

O grupo da cura gerou várias discussões pelo fato de ser o único que possuir uma técnica com prefixo ("Gires") e por ela fazer algo diferente de sua raiz "Res" e não simplesmente ser uma versão mais forte dela. "Res" se chama "San Foosu" ("Sun Force" - algo como "poder solar") no original japonês e cura a saúde um único indivíduo. "Gires" se chama "Sutaa Foosu" ("Star Force" - "poder estelar") e cura a saúde de todo o grupo. "Rever" tem o nome de "Muun Foosu" ("Moon Force" - "poder lunar") em japonês e é capaz de reviver um aliado morto. Já "Anti" se chama "Shii Foosu" ("Sea Force" - "poder marino") e pode retirar o veneno do corpo de algum aliado. Acredito que aqui tenha havido um único problema relevante na tradução que é a adoção de "Gires" e não "Sar" (presente em Phantasy Star II) como a técnica capaz de curar toda a equipe. No restante, devem ter notado que alguns desses elementos surgem tanto no Phantasy Star II como no Phantasy Star IV e até mesmo no Phantasy Star Online e Universe: "Sol", "Moon" e "Star". Em (quase) todas as suas aparições, "Moon" ressuscita um aliado, "Sun" cura um único aliado e "Star" cura todo o grupo. Apenas o "Sea" parece ser exclusivo dessa versão. Mas é em Phantasy Star III suas únicas aparições como técnica e não como item utilizável. Mas ainda assim a nomenclatura japonesa faz sentido.


No último grupo, o do tempo, temos novamente quatro técnicas que aparecem em Phantasy Star II. Neste, "Rimit" tem a possibilidade de matar um inimigo biológico, "Shiza" impede o ataque de um inimigo e "Deban" aumenta a defesa mágica. Em Phantasy Star III, porém, "Rimit" se chama "Nuun" ("Noon" - "Culminação" em português) e aumenta a chance de se escapar de um combate, "Shiza" se chama "Fooru" ("Fall" - "Crepúsculo") e previne o uso de técnicas por um inimigo e, finalmente, "Deban" tem o nome de "Naito" ("Night" - "Noite") e previne o uso de ataques físicos por um inimigo. Apenas "Ner" tem a mesma função em ambos os jogos: aumentar a agilidade de um aliado. Mas no Phantasy Star III ela se chama "Raijingu" ("Rising" - "Aurora" ou "Alvorada" em português). Notem que no original japonês cada técnica se refere a um período do dia e que seus efeitos têm alguma proximidade com o que designam (pouca é verdade, mas têm). Diferente do que vimos anteriormente, as escolhas tradutórias deste grupo fazem certo sentido já que não existem técnicas com esses efeitos em Phantasy Star II de qualquer maneira: optaram por reutilizar algumas delas ao invés de criar novos nomes.

Uma coisa bastante interessante é que a Sega of America optou por manter coerência com a terminologia do Phantasy Star II. Provavelmente julgaram que faria mais sentido aos jogadores se vissem nomes similares aos do jogo anterior. Tiveram, claro, que fazer muitas adaptações. A carência de uma técnica baseada em água levou-os a usar "tsu", por exemplo. Mas foi uma escolha corajosa de certa maneira. Os nomes continuaram obscuros, mas mantinham contato próximo com o anterior.

Essa escolha é inofensiva porque gera poucos problemas aos jogadores em última instância. Mas os nomes escolhidos geram muita discussão entre os fãs até hoje. "Res" e "Gires" é um exemplo, mas também a famosa questão "como é possível que androides usem técnicas?". Principalmente quando levamos em conta os jogos que vieram depois e que foram traduzidos sob um padrão ligeiramente diferente.

Toda tradução, quando bem feita, preocupa-se em resgatar um sentido daquilo que está sendo expresso no idioma original e torná-lo claro. A Sega of America conseguiu isso, mas o fato de outros games terem saído depois com outras terminologias apenas torna mais evidente uma outra coisa: a necessidade de se haver sempre constantes retraduções. Não porque tenham sido ruins, mas porque serviam ao seu propósito em sua época, mas que hoje, para melhor compreensão do que é dito no idioma original, pode (e deve) ser renovada.

Notem esse cuidado, por exemplo, nas escolhas que fiz para traduzir as técnicas do grupo do tempo. Não fui pela literalidade, mas pelo sentido e coerência de cada parte do grupo com o seu todo. Talvez em algum futuro remake oficialmente lançado em português possam usar essas minhas sugestões, ou esbarrarem em outras ainda melhores, quem sabe?


De qualquer maneira, retomarei com calma esses pontos referentes à tradução como um todo quando for falar do roteiro do Phantasy Star III, mas por hora ficarei por aqui mesmo.

Até a próxima postagem!

8 comentários:

  1. Ótimo texto, gostei muito de ler estas diferenças de traduções e adaptações do jogo, sobre a americana em relação a versão original japonesa.

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    1. Valeu cara! Essas diferenças são um barato mesmo! Tanto para o bem como para o mal. :-) Às vezes a tradução sai melhor que o original. hahaha. A tentativa deles manterem o padrão de técnicas do jogo anterior é uma coisa bacana, embora mal executada em alguns pontos.

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  2. Tem umas coisas aí que eu não sabia!

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    1. hahahaha Que bom Yoz! :-D Vou começar em breve a jogá-lo em japonês pela segunda vez (dessa vez conhecendo melhor o idioma). Vamos ver se esbarro em mais alguma coisa curiosa. :-)

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  3. bem explicativo, esse é um dos sistemas de magias mais confusos que eu já vi!

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    1. Valeu Velberan! :-D

      Ele é bem confuso mesmo...Lembro que na minha primeira jogatina eu ignorei completamente as lojas de técnicas. Só lá pela terceira que resolvi usar e isso quebra um galho absurdo. hahaha O jogo fica ainda mais tranquilo se você souber quais técnicas priorizar a cada momento (embora as únicas que valham a pena sejam as de cura e as de ataque mesmo). Lembro que com isso, no último encontro de Phantasy Star lá no Rio de Janeiro, cheguei perto do fim da primeira geração (e com a ajuda do frameskip em batalhas) em quarenta minutos mais ou menos.

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    2. as traduções no Dragon Quest são muito mais complicadas no inicio eles começaram por traduzir depois pararam essas traduções depois do primeiro DQM eles voltaram a lançar sem tradução, mais acho que a tradução nesse caso fica boa prq os nomes são aleatórios usando palavras e referencias usando a dicção asiática que facilita de lembrar os nomes, para nos fica muito complicado, acho que esse foi um dos maiores trunfos do pokémon

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    3. Pior é quando mudam nos relançamentos... Sou da época em que as magias de Final Fantasy tinham números (Fire 1, Fire 2 etc.) e não sufixos diferente (Fira, Firaga etc.). Foi difícil de acostumar. hahahaha

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